Na cidade, faltava água.
No banco, sobrava gente.
Quando chegou sua vez,
ela apresentou os documentos
e explicou que havia um problema
com o benefício da mãe.
A Burocracia consultou a tela:
— É preciso fazer a prova de vida.
A mulher quis saber como.
— Pelo aplicativo. É muito simples.
Simples para quem?
Sua mãe estava acamada,
não movia a cabeça,
não conseguia oferecer o rosto
ao reconhecimento facial.
— Então procure atendimento presencial.
— Mas estou aqui.
— Aqui não. Procure o órgão responsável.
E lá se foi a mulher,
com a pasta de documentos
e o Tempo atrás.
No fórum,
outra fila,
outra espera,
outra pergunta:
— Já procurou o INSS?
No INSS,
o ar-condicionado funcionava.
A internet, não.
— Já tentou pelo gov.br?
Tentara.
Mas a mãe não conseguia
fazer o reconhecimento facial.
A Burocracia prometeu consultar o sistema.
Clicou uma vez,
duas,
três.
A tela parou.
— A internet caiu.
O Tempo achou graça:
— Até a internet conseguiu tirar uma folga.
A mulher suspirou:
— Queria ter essa liberdade.
Sem resposta,
seguiu para a Defensoria Pública da União.
Banco, fórum, INSS, DPU.
O Tempo contou os destinos:
— Estamos quase completando
o circuito turístico das repartições.
Mas não havia paisagem,
lembrança de viagem
nem descanso.
A mãe estava viva.
Tinha lhe dado banho,
preparado a comida,
ajudado com os medicamentos,
ajeitado o travesseiro.
Conhecia sua respiração,
seus silêncios,
as pequenas necessidades
que não cabiam em formulário algum.
Mas a Burocracia precisava
de uma comprovação reconhecida.
A mulher já não discutiu.
Ouviu as orientações,
anotou os próximos passos,
fechou a pasta.
E saiu.
O Tempo ficou.
Tinha uma pergunta
para a Burocracia:
— Por que provar a vida de alguém
precisa consumir a vida de outro?
A Burocracia respondeu
que havia regras,
procedimentos,
limites de atuação.
O Tempo sabia que uma visita domiciliar,
um meio seguro de comprovação,
uma orientação clara
poderiam poupar tantas idas,
tantas filas,
tantas horas.
— Isso exigiria mudanças —
disse a Burocracia.
— E manter tudo como está
não exige nada de ninguém?
A Burocracia silenciou.
Talvez pudesse encaminhar propostas,
rever orientações,
ajudar a abrir outros caminhos.
O Tempo concordou.
Lá fora,
a mulher aguardava transporte.
O calor sufocava.
A água ainda não voltara.
O Tempo sentou-se ao seu lado
e perguntou:
— Se tivesse algumas horas só suas,
o que faria?
Ela pensou nos amigos
que já não encontrava,
Pensou até na felicidade pequena
de ficar sozinha,
sem fazer nada,
sem que ninguém precisasse dela
por algumas horas.
— E quando vai fazer isso? —
perguntou o Tempo.
A mulher olhou para a pasta
que carregara o dia inteiro.
E então perguntou:
— Passei o dia tentando descobrir
onde fazer a prova de vida da minha mãe.
E a minha?
Onde posso fazer a minha prova de vida
para que ninguém se esqueça, que também estou viva?


Muito bom! Infelizmente esses burocratas são os que vivem dos nossos impostos. Consideração não existe nas burocracias
Sabemos o quanto o ato de cuidar de alguém exige de nós, o quanto essa pesada carga se imiscui em nossas vidas e todos ao redor olhando como se fosse natural que nós assumíssemos esse fardo que não é só nosso. O quanto da nossa vida se esvai nesse cuidar constante, o quanto de nossos sonhos se vão embora sem que percebamos. E, sim, como um instante apenas, de silêncio, se torna uma riqueza inestimável. E quanto fardo vamos assumindo sem nem perceber e quando nos damos conta, cadê a nossa vida???