Meu coração ganhou horas extras

Dizem que devemos ouvir o coração.

Pois o meu, ultimamente, anda fazendo contas. E, para minha surpresa, descobriu que ganhou horas extras!

Não se assustem. Não estou falando de mais trabalho. O coração de quem cuida já conhece bem esse expediente. Funciona aos domingos, nos feriados e até durante o sono. Basta um ruído diferente no quarto para entrar em serviço.

Estou falando de outro tipo de hora extra. Daquelas que a gente ganha quando alguém chega e, com um gesto simples, nos devolve um pouco de tempo.

No dia 12, eu tinha um compromisso em Cuiabá.

Pedro Henrique, meu filho, tem uma agenda interna muito própria, organizada também pelos acontecimentos religiosos. Naquele dia, haveria uma procissão à tarde. Como eu não poderia acompanhá-lo, levei-o à missa das seis da manhã.

Depois da missa, Pedro Henrique quis uma camiseta de Nossa Senhora. Eu ainda estava a considerar o pedido quando ele apresentou o argumento definitivo:

— É o meu presente do Dia das Crianças!

E quem discute com uma justificativa dessas?

Enquanto me arrumava para viajar, o telefone tocou.

Era Benice.

Disse que passaria em casa para levar Pedro Henrique à procissão.

Assim, de repente, o dia ficou maior.

Pedro Henrique poderia participar de um acontecimento importante para ele. Eu poderia seguir para Cuiabá sem aquela pontinha de preocupação por não conseguir estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Fui de coração leve.

Na segunda-feira, minha irmã Carmem ficou com Pedro Henrique. Na terça, foi a vez da minha sobrinha Isabely.

Três gestos. Três ocasiões em que pude realizar meus compromissos sabendo que o meu filho estava cuidado.

Foi quando percebi que o meu coração tinha feito uma contabilidade diferente.

Quem cuida costuma saber de cor os horários dos medicamentos, das consultas, das refeições e dos compromissos. O relógio organiza o dia, mas nem sempre consegue medir o peso das preocupações.

Também não consegue medir a leveza que sentimos quando alguém se oferece para partilhar uma responsabilidade.

E tudo isso aconteceu sem grandes discursos.

Um telefonema. Uma disponibilidade. Uma presença.

Às vezes, os gestos mais preciosos são justamente aqueles que não fazem barulho.

Passei tanto tempo a contar as horas dedicadas ao cuidado que quase me esqueci de contar aquelas que o carinho de outras pessoas me devolvia.

Talvez seja por isso que o meu coração anda tão satisfeito.

Descobriu que nem todas as horas extras significam trabalho. Algumas significam descanso. Outras, liberdade. E há aquelas que vêm acompanhadas da alegria de saber que alguém se lembrou de nós.

Benice, Carmem e Isabely talvez nem imaginem o tamanho desses presentes.

Mas o meu coração sabe.

E, como gostou da experiência, já anda de olho no próximo balanço!

E você, que também cuida de alguém, quantas horas extras o seu coração ganhou esta semana?

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