Naquela manhã, ele viu

Acordou como sempre.

A mesma janela,
a mesma rua,
o mesmo sol.

Mas naquela manhã,
viu.

Viu o degrau
por onde passara
centenas de vezes.

Não era alto.

Para ele.

Viu o meio-fio
e imaginou uma roda
tentando atravessá-lo.

Viu o piso tátil
terminar diante de um poste.

E perguntou:

conduzia para onde?

Uma senhora, apoiada numa bengala,
parou diante de uma porta.
Calculou o degrau.
Procurou apoio.

Ele também parou.

Nunca imaginara
quanto esforço podia existir
entre uma pessoa
e uma porta.

Então a cidade mudou.

Ou talvez não.

Uma cadeira de rodas.
Uma bengala.
Um idoso medindo o passo.
Uma mãe empurrando um carrinho.

Onde antes via caminhos,
agora via barreiras.

E compreendeu:

quem consegue passar
raramente pergunta
quem ficou para trás.

Em 2000,
uma lei falou em eliminar barreiras.

Em 2007,
o mundo disse: elas precisam desaparecer.

Em 2009,
o Brasil assumiu o compromisso.

Os anos passaram.

Governos mudaram.
Crianças nasceram.
Árvores cresceram.
Ruas foram refeitas.

Mas o degrau, não.

Na manhã seguinte,
a cidade era a mesma.

Ele, não.

Diante de cada calçada,
cada porta,
cada esquina,

já não perguntava
se conseguiria passar.

Perguntava:

quem não consegue?

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Kelem Cristina de Sene Santos
Kelem Cristina de Sene Santos
10 minutos atrás

E muitas vezes o degrau foi o empecilho para quem lutava para ser presença na vida.