O desaparecimento silencioso de quem cuida

Depois de um tempo, você percebe que o cuidado já não ocupa só os seus dias.
Ele passa a ser a própria vida.

Não existe intervalo.
Não existe “daqui a pouco eu vejo isso”.
Tudo gira em torno da próxima necessidade, da próxima crise, do próximo momento em que alguém vai precisar de você outra vez.

E, aos poucos, aquilo que era seu começa a ficar para depois.

Depois que der.
Depois que sobrar tempo.
Depois que alguém puder ficar.

Mas quase nunca pode.

Então a vida vai se estreitando sem que ninguém perceba.

E existe uma pergunta que quase ninguém faz de verdade para quem cuida:

como é que essa pessoa continua existindo?

Porque muitas de nós deixamos de trabalhar.
Não por falta de vontade.
Não por preguiça.
Não por incapacidade.

Mas porque o cuidado não cabe dentro de um horário comercial.

A conta simplesmente não fecha.

Quando pensamos em sair para trabalhar, o que se ganha muitas vezes mal paga alguém para ficar no nosso lugar por algumas horas.

E então vamos ficando.

Ficando em casa.
Ficando para trás.
Ficando invisíveis.

Não porque escolhemos isso.
Mas porque, muitas vezes, não existe alternativa real.

E há lugares onde até sair de casa já é uma dificuldade.

Não há transporte adequado.
Não há acesso.
Não há apoio suficiente.

O que existe raramente alcança quem mais precisa.

Às vezes, o mundo está logo ali fora da janela.
Mas, na prática, ele não chega até nós.

E, com o tempo, o mundo vai ficando distante.

Não porque a gente não queira viver.
Mas porque não encontra caminho possível.

Talvez seja isso que muita gente ainda não entende:

o que falta não é força.

Quem cuida já vive cansado de ser forte.

O que falta é estrutura.
É apoio.
É um lugar possível.

Um espaço onde nossos filhos possam permanecer durante o dia com segurança, acompanhamento, atividades e convivência.

Um lugar onde eles possam existir além das paredes de casa.

E nós também.

Não para deixar de cuidar.
Mas para respirar sem culpa.

Para trabalhar.
Para voltar a conversar sobre outros assuntos.
Para lembrar, ainda que por algumas horas, quem éramos antes de nos tornarmos apenas função.

E então voltar no fim do dia.
Buscar nossos filhos.
Continuar cuidando.

Mas continuar de um lugar onde nós ainda existimos também.

Porque cuidar não deveria significar desaparecer.

Para ninguém.

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