Quando cuidar também cansa

Depois de um tempo, você aprende a falar do cansaço.
Aprende a explicar a rotina, as consultas, as adaptações.
Aprende até a nomear o amor.

Mas há uma parte que não cabe em palavras.

Não porque não exista —
mas porque não se explica.

Há momentos em que o cansaço não é só físico, nem emocional.
É um lugar onde tudo dentro de você pede silêncio,
mas a vida continua fazendo barulho.

E, às vezes, surge um pensamento.
Rápido.
Quase um susto.

Um impulso de sair.
Não resolver.
Não melhorar.
Só sair.

A porta está ali.
E você não atravessa.

Não por falta de força —
mas porque não existe para onde ir
que não leve tudo junto.

O pensamento passa.
Mas deixa algo atrás: culpa.

Porque ninguém prepara você
para o que sente
quando não está dando conta.

E também não falam do que a rotina vai exigindo em silêncio.

Pequenos ajustes.
Quase invisíveis.

A casa muda.
Você muda junto.

Falam de força.
De amor.
De resiliência.

Mas não falam desse ponto exato
em que você continua —
mesmo sem ter de onde tirar.

E talvez o mais difícil não seja o cansaço.

Seja não poder dizer isso em voz alta.

Porque quem cuida aprende rápido:
há sentimentos que não são permitidos.

Mesmo quando são reais.

4 2 Votos
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os Comentários