Tenho medo de me acostumar.
Não ao sofrimento.
Mas à presença constante dele.
Tenho medo de deixar de me espantar.
Porque, às vezes, as tragédias não chegam de uma vez.
Elas se instalam aos poucos.
E, sem percebermos, começamos a chamar de normal aquilo que jamais deveria ser.
Tenho medo de me acostumar com pessoas vivendo nas ruas e seguir caminhando como se aquilo fizesse parte da paisagem.
Tenho medo de me acostumar com notícias de violência e já não sentir tristeza.
Tenho medo de me acostumar com idosos abandonados.
Com cuidadores exaustos.
Com mães que vivem sem rede de apoio.
Tenho medo de me acostumar com crianças excluídas de escolas, cursos e espaços de convivência.
Tenho medo de me acostumar com pessoas que precisam implorar por acessibilidade.
Tenho medo de me acostumar com o discurso de ódio.
Com a agressividade nas redes sociais.
Com a falta de escuta.
Tenho medo de me acostumar com a solidão.
Com a pressa.
Com a indiferença.
Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a maldade.
Talvez seja a capacidade que desenvolvemos de conviver com aquilo que deveria nos inquietar.
Porque o ser humano se adapta.
E essa é uma das nossas maiores virtudes.
Mas talvez também seja um dos nossos maiores perigos.
Às vezes, me pergunto se a indiferença não se tornou uma espécie de sétimo sentido da humanidade.
Vemos.
Ouvimos.
Falamos.
Tocamos.
Sentimos.
Pensamos.
E, ainda assim, aprendemos a não nos deixar afetar.
Por isso, tenho medo de me acostumar.
Porque, no dia em que a dor do outro deixar de me causar espanto, talvez alguma coisa importante dentro de mim tenha começado a desaparecer.
E espero que isso nunca aconteça.


Tenho medo de me acostumar com a necessidade de erguer a cabeça e precisar seguir em frente como se o outro fosse invisível em seu sofrimento e/ou suas necessidades sem nada fazer, nem me espantar.