Um fim de semana que não pediu licença

Há coisas que a gente não planeja.
E talvez sejam justamente essas que mais nos transformam.

Pedro tem um olhar raro para aquilo que quase ninguém percebe: os santos, os ritos, os detalhes silenciosos da Igreja Católica. Foi esse olhar que nos levou até Vila Bela da Santíssima Trindade, para a reza da Santa Cruz e de Nossa Senhora da Piedade, no sítio Arrozal — terra da família de Dona Nemézia Profeta.

Dona Nemézia carrega uma história que atravessa gerações. Reconhecida como Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Estado de Mato Grosso, há mais de cinquenta anos é presidente da Irmandade do Divino Espírito Santo. Mas talvez o que mais impressione nela não esteja nos títulos. Está na forma como transforma acolhimento em presença.

E quem vive a maternidade de uma criança autista sabe: convites assim não são comuns.

Saímos de Cáceres na sexta-feira pela manhã. Antes mesmo de chegar, já havia mesa posta, portas abertas, gente recebendo sem perguntas. Pedro viu a piscina, entrou na água e, em minutos, parecia pertencer àquele lugar desde sempre.

Nós éramos os agregados. E, ainda assim, completamente dentro. Como se aquele lugar já soubesse acolher antes mesmo da gente chegar.

E talvez essa tenha sido a primeira surpresa do fim de semana: ninguém parecia exigir explicações.

À noite, entre conversas, encontros e celebrações, senti algo raro. Não precisei antecipar olhares. Não coloquei o cordão. Não preparei ninguém para o Pedro. Ele era apenas mais um entre todos.

No sábado, caminhamos pela orla do Rio Guaporé, participamos de um batizado, reencontramos o padre Orlando e seguimos sendo levados pelos convites simples que surgiam pelo caminho. Tudo acontecia sem esforço.

À noite, durante a celebração no Arrozal, veio o momento que ficou.

Jaquelina dançava com uma garrafa equilibrada na cabeça. Pedro observava atento. Então aproximou-se, olhou para ela e a convidou para dançar.

Ela aceitou.

E dançaram.

Sem explicação. Sem mediação. Sem ninguém transformar aquilo em discurso.

Talvez porque inclusão, às vezes, não esteja nas palavras. Mas no instante em que alguém entra naturalmente no gesto do outro — e fica.

Há fins de semana que passam.
E há os que permanecem.

Este ficou.

Não pela distância percorrida, mas pela rara sensação de pertencimento sem esforço. Pela leveza de, por alguns dias, não precisar explicar o mundo — nem o Pedro — para ninguém.

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Marcela Profeta Ribeiro Pinho
Marcela Profeta Ribeiro Pinho
1 hora atrás

O tempo passado com vc, Cícera e o Pedro Henrique, renderam ótimas conversas