Quando eu não estiver mais aqui

Existe uma pergunta que atravessa silenciosamente milhares de lares brasileiros.

Ela quase nunca é feita em voz alta.

Mas todas as noites, antes de dormir, alguém a repete em silêncio.

Quem cuidará do meu filho quando eu não estiver mais aqui?

À primeira vista, parece uma pergunta de mãe. De pai. De família.

Não é.

É uma pergunta dirigida a todos nós.

Porque, quando uma mãe faz essa pergunta, ela não está apenas pensando no futuro do filho. Ela está perguntando se a sociedade continuará reconhecendo o valor daquela vida quando ela já não puder estar ali para defendê-la.

Essa é uma pergunta que nenhuma família deveria carregar sozinha.

Nenhuma mãe deveria envelhecer com o medo de que o futuro do filho termine junto com a própria vida.

Nenhum pai deveria acreditar que a dignidade de quem ama depende exclusivamente da sua presença.

Quando isso acontece, não é a família que falhou.

É a sociedade.

Durante muito tempo tratamos o cuidado como uma responsabilidade privada. Como se bastasse amar muito para garantir proteção para sempre.

Mas há responsabilidades que ultrapassam os muros de uma casa.

Elas pertencem a todos.

Costumamos medir a inclusão pelo número de rampas construídas, pelas leis aprovadas ou pelos pisos táteis instalados.

Tudo isso é importante.

Mas nenhuma rampa substitui uma comunidade.

Nenhuma lei cria, sozinha, pertencimento.

Nenhum decreto oferece o abraço de uma rede de apoio.

Porque pertencer não significa apenas conseguir entrar em um lugar.

Pertencer significa saber que você continuará tendo valor mesmo quando aqueles que sempre cuidaram de você já não puderem fazê-lo.

Significa viver em um país onde a sua dignidade não depende da sobrevivência da sua mãe.

Onde sua existência não fica suspensa quando seu pai envelhece.

Onde existem pessoas, instituições e políticas públicas preparadas para dizer, com ações e não apenas com discursos:

“Você não ficará sozinho.”

Talvez este seja o verdadeiro significado de uma sociedade inclusiva.

Não abrir portas.

Mas garantir que ninguém seja deixado para trás quando a vida inevitavelmente mudar.

Enquanto essa pergunta continuar sendo feita apenas dentro das casas, continuaremos tratando como dor individual aquilo que é um fracasso coletivo.

Talvez seja hora de inverter a pergunta.

Em vez de perguntar às famílias:

“Quem cuidará do seu filho quando você não estiver mais aqui?”

Precisamos perguntar a nós mesmos:

“Que sociedade estamos construindo para que nenhuma pessoa fique desamparada quando o amor dos seus pais já não puder protegê-la?”

Porque a grandeza de um país nunca será medida pela forma como trata os mais fortes.

Ela será medida pelo dia em que uma mãe puder fechar os olhos em paz, sabendo que o filho continuará pertencendo ao mundo.

Esse será o dia em que teremos aprendido, enfim, o verdadeiro significado da dignidade humana.

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Rosa Maria Garcia
Rosa Maria Garcia
1 dia atrás

Cicera. Você já deu a sugestão correta . A familia tem que sair de seus muros e ir à luta, enfrentando oposição na sociedade , mas na busca de políticas públicas que venham garantir a qualidade de vida de seus filhos na sua ausência,. Parabéns amiga!