Em Vila Bela, o acolhimento também é uma tradição

No dia 17 de julho de 2026, eu e Pedro chegamos a Vila Bela da Santíssima Trindade e seguimos diretamente para a casa de Dona Nemézia Profeta. A celebração do Divino Espírito Santo ainda acontecia. Um silêncio respeitoso envolvia a cerimônia.

Encerrada a celebração, o almoço foi servido. A cada novo visitante que chegava, Dona Nemézia, Marcela, Miria e Jaquelina caminhavam até o portão para cantar e dançar em sua homenagem.

Existe forma mais bonita de receber alguém?

No final da tarde chegaram as crianças que fazem a belíssima apresentação do Congo. Cantavam, dançavam… ou, como lembrou Dona Nemézia, passariavam. Ela contou que sua mãe costumava observar as crianças e dizer que elas “passariavam bem”.

Enquanto observava uma menina pequena, ao lado da mãe, ensaiando os primeiros passos da dança, a palavra ganhou outro sentido para mim.  Imaginei um passarinho aprendendo a voar.

Eu também queria passarinhar…

À noite, durante a reza na casa da Imperatriz e do Imperador, Pedro cantava com todos. Pela primeira vez, não senti necessidade de explicar quem ele era.

No dia 18, durante a missa do Divino Espírito Santo, a dedicação da Imperatriz e do Imperador estavam nos gestos. Muito trabalho sustenta aquela tradição ao longo ano.

Em determinado momento, uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto de quem encerrava aquela missão. Naquele gesto parecia existir uma mensagem sem palavras: missão cumprida.

Uma missão assumida em nome dos descendentes de Tereza de Benguela, de um povo que aprendeu, ao longo da história, a resistir, acolher, servir e manter viva sua cultura através da fé.

Depois da missa aconteceu a escolha da nova Imperatriz e do novo Imperador. Seu choro era bonito.

Mais tarde, seu pai me contou que ele aguardava esse momento havia vinte anos. Ali o título não representa prestígio. Representa serviço.

No dia 19 acompanhei a chegada do Congo à casa da Gorete.

Tudo começou, muitos anos atrás, quando ela resolveu oferecer um café da manhã aos filhos. Depois vieram os amigos dos filhos. Vieram os amigos dos amigos. E, sem que ninguém planejasse, sua casa tornou-se um ponto de encontro da festa.

Entre tantas pessoas havia um homem que dizia, sorrindo, que naquele ano não iria dançar porque estava cansado.

Seu corpo, porém, contava outra história. Seus pés acompanhavam o ritmo dos tambores.

Outro encontro muito esperado é o Chá Afro, organizado por Dona Nemézia há trinta anos.

Quando tudo começa, a mesa está posta. Os chás preparados com plantas da região aguardam os primeiros visitantes e, ao lado dos pratos típicos, aparecem outros sabores que foram sendo incorporados ao longo dos anos.

Pouco a pouco chegam os parentes. Depois os vizinhos. Em seguida aparecem os amigos e os amigos dos amigos. Em pouco tempo, o espaço que parecia amplo já está completamente tomado por gente, conversas e reencontros. É difícil distinguir quem mora em Vila Bela e quem chegou de fora.

Na ocasião, o prefeito recordou uma frase de Dona Nemézia que muitos repetem como um verdadeiro lema da cidade:

“Vila Bela de todas as raças, de todas as cores, de todas as flores e de todos os amores.”

E bastava olhar em volta para perceber que aquilo não era apenas uma frase. A mesa continuava recebendo quem chegava.

No dia de São Benedito, ao final da missa, seu Nazário, presidente da Irmandade de São Benedito, falou da alegria que sente por, durante a festa, servir gratuitamente a refeição a quem chega, lembrando que esse gesto traduz a generosidade de São Benedito.

Mostrou que há muito trabalho ao longo do ano para que tudo aconteça, mas que uma das maiores recompensas é ver a própria família envolvida nessa missão. Contou, com evidente emoção, que os filhos estão presentes, ajudando nas atividades da irmandade. Para ele, isso é uma bênção.

Ao longo daqueles dias compreendi que o maior patrimônio de Vila Bela não está apenas nas igrejas, nas festas ou na memória de seu povo.

Está na forma como uma geração entrega a outra aquilo que recebeu.

Pais ensinam filhos. Avós ensinam netos. Os mais velhos preservam os ritos; os mais novos aprendem para que nada se perca.

Cuidar das pessoas também é tradição.

Talvez por isso ninguém volte de Vila Bela levando apenas fotografias. Leva também o desejo silencioso de voltar.

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