As coisas que começam antes

As coisas que começam antes

As três estavam sentadas depois do café da manhã.
Ainda havia migalhas de pão sobre a mesa.
A televisão murmurava as notícias do dia.

A filha pegou o controle e desligou a televisão.
— De novo — disse.

Ninguém precisou perguntar qual.

A mãe passou a mão pelo rosto.

— Está ficando difícil fingir que isso é exceção.

A avó olhava para a mesa.

— Quando eu era jovem, essas histórias quase nunca chegavam aos jornais.

— Mas aconteciam? — perguntou a filha.

A avó levantou os olhos.

— Aconteciam.

O silêncio ficou entre elas por um instante.

A mãe falou devagar:

— Às vezes penso que o feminicídio é apenas a última página de uma história que começa muito antes.

A filha franziu a testa.

— Antes de onde?

— Antes do crime — respondeu a mãe.
— Começa quando a palavra de uma mulher pesa menos numa reunião. Quando explicam para ela o que ela mesma acabou de dizer. Quando o trabalho dela precisa ser duas vezes melhor para ser considerado igual.

A avó assentiu.

— Começa quando dizem que certas coisas são “do jeito das mulheres”.

A filha apoiou os braços na mesa.

— Na minha geração dizem que já conquistamos tudo.

A mãe olhou para ela com atenção.

— Então por que ainda ensinamos as meninas a ter cuidado com a roupa, com a hora de voltar para casa, com o caminho que escolhem para andar?

A filha não respondeu.

A avó mexeu lentamente a xícara.

— Porque, no fundo, sabemos que o mundo ainda não é seguro para elas.

A mãe acrescentou:

— E o mais estranho é que muitas dessas regras continuam sendo tratadas como se fossem apenas bom senso.

A filha respirou fundo.

— Então a violência não começa no crime.

A avó respondeu com tranquilidade:

— Não.

A mãe completou:

— Ela começa nas pequenas permissões que a sociedade aceita todos os dias.

As três ficaram em silêncio.

Depois de um tempo, a filha falou:

— Talvez por isso tantas mulheres estejam cansadas.

A avó olhou para ela com um leve sorriso.

— Cansaço nunca foi novidade entre as mulheres.

Fez uma pequena pausa.

— A novidade é que agora vocês começaram a nomear as coisas.

A mãe encostou na cadeira.

— E quando as coisas ganham nome, fica mais difícil fingir que não existem.

A filha olhou para as duas.

— Então a história ainda não acabou.

A avó respondeu com serenidade:

— Não.

A mãe completou:

— Mas talvez estejamos finalmente aprendendo a reconhecê-la enquanto ela acontece.

As três ficaram em silêncio por um momento.

Porque algumas histórias parecem inevitáveis
apenas quando ninguém percebeu onde elas começaram.

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Kelem
Kelem
3 horas atrás

As coisas começam quando se ensina apenas às meninas a como se comportar e não se ensina aos meninos que as regras valem também para eles…