O não que chega antes das palavras

Quando surge um curso, uma capacitação ou uma oportunidade de aprender algo novo, a mãe atípica também se anima.

Ela faz a inscrição, organiza horários, calcula distâncias e imagina possibilidades.

Por alguns instantes, permite-se sonhar.

Talvez seja a oportunidade que estava esperando.

Talvez seja o momento de voltar a olhar para si.

Então chega a hora de avisar:

— Preciso trazer meu filho comigo. Não tenho com quem deixá-lo.

E, muitas vezes, antes mesmo da resposta ser dada, ela percebe.

Um breve silêncio.

Uma expressão de surpresa.

A busca sincera por uma solução que nem sempre existe.

Depois vêm as explicações:

“Infelizmente, ainda não temos estrutura.”

“Neste momento, não conseguimos oferecer esse apoio.”

“Quem sabe em uma próxima oportunidade.”

“São as regras.”

Na maioria das vezes, ninguém deseja excluir.

As pessoas fazem o melhor que conseguem com os recursos que possuem.

As instituições também.

Foram construídas pensando em um participante que chega sozinho.

Mas algumas pessoas não chegam sozinhas.

Mães atípicas não chegam sozinhas.

Pessoas que dependem de apoio não chegam sozinhas.

E talvez ainda estejamos aprendendo a enxergar realidades que não cabem nos modelos que sempre utilizamos.

Com o tempo, muitas mulheres aprendem a reconhecer essas limitações antes mesmo de fazer a pergunta.

E talvez seja por isso que tantas deixem de se inscrever.

Não porque perderam o interesse.

Não porque desistiram dos próprios sonhos.

Mas porque se cansaram de alimentar expectativas que tantas vezes esbarram nas mesmas dificuldades.

A exclusão mais dolorosa nem sempre acontece quando alguém diz “não”.

Às vezes, ela acontece quando a pessoa aprende a não perguntar mais.

Talvez a inclusão verdadeira comece quando deixarmos de perguntar como a mãe vai resolver tudo sozinha.

E passarmos a perguntar:

— O que podemos fazer para que vocês dois participem?

Porque, às vezes, tudo o que uma pessoa precisa para continuar sonhando é encontrar um lugar onde não precise escolher entre cuidar e ter uma vida que também lhe pertença.

Talvez seja justamente aí que a sociedade se torne mais humana.

Quando compreendemos que incluir não é fazer um favor.

É abrir espaço para que cada pessoa possa viver com dignidade, pertencimento e esperança.

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Kelem Cristina de Sene Santos
Kelem Cristina de Sene Santos
2 horas atrás

E como é difícil esse “incluir sem perguntar “… mamãe lutou muito para ocupar espaços sociais, mas na maioria das vezes os obstáculos “imateriais” eram maiores que os ” materiais”…