Há filmes que se assistem com os olhos.
E há outros, como PK, que se assistem com a alma.
Um ser vindo de outro planeta chega à Terra e não entende nada: as roupas, os rituais, as orações, os medos.
O que para nós é natural, para ele é absurdo.
E é nessa inocência — nesse espanto — que PK nos ensina algo que esquecemos:
ver não é olhar.
Ver é perguntar.
Há também aquele gesto curioso — ele está sempre a mastigar.
Como se o mundo, para ele, fosse algo que precisasse ser saboreado antes de entendido.
Mastiga o tempo, as palavras, os costumes, como quem tenta transformar em sentido o que apenas confunde.
É um corpo tentando digerir a realidade.
Talvez seja isso o que fazemos também: ruminamos crenças antigas, engolimos medos, repetimos o sabor do que nos disseram ser certo.
PK mastiga porque tudo o espanta.
Nós, porque já deixámos de nos espantar.
E se perguntássemos também?
Se Deus é amor, por que temos medo?
Se o cuidado é carinho, por que tantas mulheres o vivem como prisão?
Se dizem que somos fortes, por que esperam que suportemos tudo em silêncio?
Se a fé é liberdade, por que precisamos de permissão para existir?
Talvez, como PK, tenhamos aprendido a viver de olhos abertos, mas de perguntas fechadas.
Aprendemos a sorrir para não ofender, a servir para ser aceitas, a calar para não parecer ingratas.
Chamam-nos de guerreiras — e aplaudem a nossa exaustão.
Chamam-nos de formiguinhas — e elogiam a nossa invisibilidade.
Dizem que é amor — mas é controle disfarçado de cuidado.
E se o amor não for obediência?
E se o cuidado for apenas mais uma forma de domesticação?
E se o medo que sentimos não for proteção, mas manipulação?
PK desmonta os discursos religiosos com perguntas simples.
Não ataca; observa.
E, observando, revela.
Talvez devêssemos fazer o mesmo com as verdades que nos cercam:
olhar com espanto o que sempre chamaram de normal,
duvidar do que parece sagrado,
escutar o que o silêncio esconde.
Ver é desobedecer suavemente.
É desaprender o medo.
É tirar as mãos dos olhos e perceber que o mundo foi desenhado para que não o víssemos inteiro —
e nem a ver beleza na completude das diferenças.
Por isso, este texto não é uma resposta.
É um convite.
A ti, mulher:
Aprende a ver o mundo como PK — com inocência e lucidez.
Pergunta, mesmo quando esperam silêncio.
Olha o amor, o cuidado, a fé, e pergunta:
“Quem ganha com o meu medo?”
“Quem se alimenta da minha culpa?”
“Quem me chama de forte para que eu não peça ajuda?”
Quais as crenças que te cercam, tão firmes, tão polidas, que já se tornaram molduras onde deixaste de te mover?
Porque só quando voltamos a ver é que voltamos a ser.
E só quem vê o que a história tentou esconder pode, enfim, reescrever o seu próprio enredo.
Há filmes que se assistem com os olhos.
Há outros, como PK, que se assistem com a alma.
E há mulheres, como você, que aprenderam — enfim — a ver.


Belo texto!! Disse tudo! Palmas 👏 👏
PK chega sem saber como as coisas funcionam e, por isso mesmo, vê melhor. Ele observa, pergunta, estranha. Aquilo que para nós é hábito, para ele é um mistério. E nesse olhar simples, quase ingênuo, isso nos lembra que muita coisa só parece normal porque nunca foi questionada.
Ainda não conheço, mas vou procurar…