Depois de tudo, às vezes eu penso:
e se fosse diferente?
Não melhor no sentido distante.
Não perfeito.
Só… possível.
Uma cidade onde sair de casa não fosse um cálculo.
Onde existisse transporte que realmente chegasse.
Que considerasse quem precisa.
Onde atravessar a rua, entrar num espaço,
ou simplesmente circular
não exigisse preparação, estratégia, antecipação de risco.
Uma cidade onde nossos filhos tivessem para onde ir.
Durante o dia.
Não como exceção.
Não como favor.
Mas como parte da vida.
Espaços com atividades.
Com acompanhamento.
Com convivência.
Onde eles pudessem estar.
Aprender.
Interagir.
E nós também pudéssemos sair.
Trabalhar.
Resolver coisas simples.
Respirar um pouco fora do cuidado.
E voltar no fim do dia.
Sem culpa.
Sem improviso.
Sem exaustão acumulada antes mesmo da manhã terminar.
Uma cidade onde o apoio não dependesse de insistência.
Onde o acesso fosse claro.
Direto.
Possível.
Onde não fosse preciso chegar ao limite
para então ser visto.
Onde o que é direito
não precisasse parecer favor.
E talvez, nessa cidade,
ninguém precisasse desaparecer para cuidar.
Nem quem cuida.
Nem quem é cuidado.
Porque a vida caberia.


Que bom seria…
Um respiro sem culpa!
E que pena que isso ainda não é possível. Minha lutou, lá do jeito dela por esse direito e, morreu sem concretizar o sonho da liberdade de estar na rua. Quando muito, conseguiu ir sozinha à igreja e à casa de uma outra amiga, onde precisava de ajudar para entrar com sua cadeira de rodas, que mesmo motorizada, não vencia as barreiras das calçadas intransitáveis ou dos buracos nas ruas.