Na noite de 20 de agosto de 2026, no Centro Cultural Casa Cuiabana, em Cuiabá, vivi uma daquelas noites em que a vida parece encontrar uma história que começou muito antes.
Ao lado de Fernando Tadeu de Miranda Borges, Aline Wendpap Nunes Siqueira e Joyce Lombardi, passei a integrar o PEN Clube de Mato Grosso, que faz parte do PEN Clube Brasil – Região Centro-Oeste, com representação em Mato Grosso.
A cerimônia, sob a presidência do jornalista Elias Neto, foi bonita e acolhedora. Cheguei ao PEN pelo convite da historiadora Maria de Lourdes Fanaia e tive a alegria de viver aquele momento ao lado do meu filho, Pedro Henrique Feitosa Arruda, e das amigas Rosaria Natale, Cristina e Luciana, esta, minha amiga desde os tempos do Ensino Médio.
Entrar para o PEN significa também entrar numa história de mais de um século. Criado em Londres pela escritora Catharine Amy Dawson Scott, nasceu como espaço de encontro entre escritores e tornou-se um movimento internacional dedicado à literatura, ao diálogo e à liberdade de expressão.
Mas, naquela noite, toda essa grandeza ganhou para mim uma dimensão muito simples:
uma roda de pessoas e suas histórias.
Um dos confrades havia passado recentemente por uma cirurgia no ombro. Estava de tipoia.
Mas estava lá.
E falava de João Cabral de Melo Neto com o entusiasmo de quem fala de um velho conhecido.
Outro nos levava pela história do futebol cuiabano. Vieram histórias de Cuiabá, de seus lugares e de personagens que continuam vivendo cada vez que alguém os torna a contar.
Alguém declamava um poema. Depois vinha outro.
Uma história puxava outra. Uma lembrança acordava outra lembrança.
Havia naquela roda uma liberdade quase adolescente: vontade de contar, ouvir, rir, lembrar. E de dizer, com a maior naturalidade:
— Vou declamar mais um poema.
Talvez tenha sido essa espontaneidade que me levou tantos anos para trás.
No Ensino Médio, saíamos de Lambari D’Oeste para estudar em Rio Branco. Eu e Detinha adorávamos passar na casa de Luciana para fazer um lanche.
Seu pai, o professor Hilton Bahiense da Fonseca, sabia das nossas visitas e fazia questão de deixar um bolo de fubá pronto para nós.
É curioso o caminho que a memória escolhe.
Naquela noite, entre escritores, histórias e poemas, lembrei-me daquele bolo.
Porque havia alguma coisa de casa naquela roda.
A alegria de chegar. De sentar. De conversar. De encontrar algo esperando por nós.
Quando adolescente e jovem, eu adorava ler nos livros as descrições dos saraus. Imaginava aquelas reuniões, as vozes, os poemas, as histórias, os risos. Sonhava participar de um encontro assim e me perguntava por que não havia saraus como aqueles na minha cidade.
Algumas perguntas levam muitos anos para encontrar resposta.
Naquela noite, na Casa Cuiabana, encontrei uma.
Ali estavam a menina que lia sobre saraus, a estudante que ia à casa de Luciana e a mulher que se tornou escritora.
Passado e presente haviam se sentado à mesma roda.
Então compreendi:
o sarau que um dia conheci nos livros finalmente havia saído das páginas.
Desta vez, eu estava dentro dele.


Parabéns, um texto muito significativo.
E mais uma vez, a memória nos traz nossa história de volta. Que belo texto.
Que felicidade ver um sonho se concretizar!!!!
Que alegria em poder compartilhar esse seu momento e testemunhar seu robusto crescimento como escritora Cícera!
E conforme o autor alemão Eckhart Tolle em seu livro o Poder do Agora, “o tempo não existe!”, assim…o que vivemos em nosso ensino médio no Rio Branco ainda nos permeia e sempre estará ali para quando quisermos lá voltar e interagir com memórias criadas com pureza e idealizações juvenis que nos impulsionaram até aqui.
Reitero aqui meus parabéns por mais essa exclusiva conquista! 🌹