Nem tudo precisava das suas mãos

No início,
é só o gesto.
o olhar que vigia.
Nada de poesia.
Só o fazer.
Só o dia que começa
antes de terminar.

Depois,
vem o cansaço.
Um cansaço que não grita,
mas se espalha.
Fica nos ombros,
na paciência que encurta,
na vontade de, por um instante,
não ser necessário.
E ainda assim,
você fica.

Há dias em que o cuidado
é quase invisível.
Ninguém vê.
Mas então,
algo acontecia:
um olhar que pousava mais demorado,
um silêncio que não feria,
uma respiração que encontrava ritmo.
E ela sabia:
nem tudo estava se desfazendo.

Diziam que cuidar
era repetir.
Ela descobriu
que era atravessar.
Cada gesto
abria um caminho
entre o que falta
e o que ainda pode existir.

Um dia,
quase esqueceu de si.
Foi quando percebeu
que sua sombra
já não a acompanhava.
Parou.
Não por escolha —
por necessidade.
E, no meio do caminho,
recolheu o próprio nome
como quem recolhe algo esquecido
no chão.

Desde então,
passou a deixar sinais:
um tempo só seu
escondido entre tarefas,
um pensamento que não era do outro,
um limite dito em voz baixa.
Marcas
de que ainda habitava o próprio corpo.

E assim seguiu:

E, no meio do cuidado,
aprendeu a se posicionar.

Pediu quando foi preciso.
Não carregou tudo sozinha.
Aceitou o que não mudava.

Já não esperava que viessem.

Porque, quando não se afastava,
o mundo estreitava
até caber inteiro no cansaço.

E ela sabia:
ficar sempre também era perder.

E, ainda assim,
guardou um gesto leve —
não para os outros,
mas para si.

Nem tudo precisava das suas mãos.

E, diante disso,
começou a escutar
o que, nela,
ainda queria viver.

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Kelem
Kelem
9 horas atrás

É pena que até descobrirmos que nem tudo precisa das nossas mãos, tanto elas quanto a alma já estejam tão calejadas, que um afago, por vezes parece quase agressão…

Marcela Profeta Ribeiro Pinho
Marcela Profeta Ribeiro Pinho
7 horas atrás

Sempre muito acertiva com as palavras