Onde Pedro pôde ser

No último sábado, fui à Festa de São Sebastião, na Fazenda Jacobina.
Um lugar que guarda o tempo — como quem guarda água em pote de barro.
A igreja pequena, delicadamente pousada perto da margem de um riacho, parecia parte da paisagem.Recém-reformada, agradecia em silêncio por continuar sendo ponto de encontro.

Teve café da manhã.
Procissão. Missa. Almoço farto.
Música ao vivo.
Gente de Cáceres.
Sobretudo, gente de memória.

As famílias mais antigas reconheciam o chão com os pés.
Apontavam cantos, árvores, sombras:

“Era aqui que a gente parava.”
“Foi aqui que aconteceu.”

A Jacobina não era só destino —
era passagem.
E quem passou por ali, voltou naquele dia pelas lembranças.

Terezinha e os filhos receberam como quem sabe receber:
sem alarde, com presença.
Anfitriões que não ocupam o centro,
mas sustentam o encontro.

Havia histórias antigas também.
Do tempo da escravidão.
Histórias que não se contam em voz alta —
mas que o lugar ainda sabe.

Durante a missa, caiu uma chuva bela e mansa —
como se o céu tivesse entendido o momento.
Quando a celebração terminou,
a chuva virou quase um gesto:
fina, delicada,
que não interrompeu o dia,
nem dispersou as pessoas.

Seguimos para o almoço.
Pedro pegou carona com Maridalva.
A maioria veio a pé.
Muitos carregavam cadeiras na cabeça —
equilibradas com naturalidade,
como quem transporta não peso,
mas pertencimento.

Era uma cena bonita de se ver.
Simples.
Antiga.
Viva.

Mas, para mim, o mais importante
não estava no rito,
nem na comida,
nem na música.

Estava em Pedro.

Pedro estava à vontade.
Livre — palavra rara.
Sentou-se noutra mesa, com Deca, Paulinho e Eveli,
como quem escolhe o próprio lugar no mundo.

Eles o ouviram com atenção.
Riram com ele.
Esperaram seu tempo.

Não houve esforço.
Não houve desvio de olhar.
Apenas presença.

Pedro não precisou se adaptar.
Não precisou ser traduzido.
Ali, entre risos e histórias soltas, ele cabia.

E eu, pela primeira vez em muito tempo,
não precisei intermediar o momento.

Então aconteceu o quase milagre cotidiano:
consegui fotos.
Pedro sorrindo.
Pedro deixando o sorriso ficar.
O olhar focado, presente, naquele instante.

Não era pose.
Era acontecimento.

Ali, entre pessoas que lembravam do passado,
Pedro fazia algo ainda mais precioso:
habitava o agora.

A Jacobina, naquele sábado,
não foi apenas cenário de saudade.
Foi espaço de permissão.

Um lugar onde um menino pôde ser quem é —
sem ajuste,
sem defesa,
sem explicação.

E talvez seja isso que as festas antigas ainda saibam fazer:
abrir um intervalo no mundo
para que a vida, finalmente, respire do seu jeito.

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Ana Lúcia
Ana Lúcia
1 mês atrás

Que texto lindo minha amiga, escrito com a alma. Ah!!! posso imaginar a felicidade de Pedro.

Maria de Lourdes Costa Marques
Maria de Lourdes Costa Marques
1 mês atrás

Maria de Lourdes Costa Marques