A delicada arte de ver o outro

Talvez ainda estejamos a aprender
o que significa ser humano.

Vivemos um tempo curioso.

A ciência realiza prodígios.
Transplantamos córneas
e devolvemos a alguém
a luz da paisagem.

Transplantamos corações
e oferecemos mais alguns anos
à vida.

Construímos olhos de metal
que vigiam o planeta inteiro.

As máquinas atravessam o espaço
com precisão
de estrelas domesticadas.

Aprendemos a medir o universo
em números impossíveis.

Mas ainda tropeçamos
na tarefa simples
de reconhecer um rosto.

Há circuitos cada vez mais rápidos
e corações cada vez mais lentos.

Aprendemos a devolver a visão
a quem já não via.

Mas ainda não sabemos
olhar uns para os outros.

Uma mulher pode morrer
por dizer não
a um amor que a fere.

Um míssil pode atravessar oceanos
porque alguém decidiu
que um território
vale mais
do que as pessoas que respiram nele.

Talvez a verdadeira evolução
não esteja em conquistar territórios
nem em aperfeiçoar armas.

Talvez esteja
na tarefa simples
e infinitamente difícil

de reconhecer um rosto.

De perceber que cada vida
carrega uma centelha.

E que no olhar do outro
existe

a mesma luz.

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