O cansaço que ninguém vê

Ninguém fala do momento em que o cuidador começa a desaparecer.

Não é de uma vez.
Não é um corte brusco.

É um ajuste.

Depois outro.
E mais um.

Você reorganiza o horário.
Adapta a rotina.
Explica no trabalho.
Pede compreensão.

Por um tempo, ainda tenta sustentar quem era.

Até o dia em que não cabe mais.

E você sai.

Sai da profissão,
dos planos,
das versões de si que exigiam presença inteira.

E ninguém chama isso de perda.

Chamam de amor.
De força.
De exemplo.

Mas há um nome que não dizem:

renúncia contínua.

Aos poucos, o seu nome muda.

Você deixa de ser quem era
e passa a ser função.

Mãe.
Cuidadora.
Responsável.

E tudo o que era seu
fica para depois.

Depois da consulta.
Depois da terapia.
Depois da próxima urgência que nunca espera.

Até que, um dia, o corpo interrompe.

Era cinco da manhã.

A dor veio no peito.
Forte.
Fechando a respiração.

Qualquer pessoa sabe o que fazer.

Ir para a UPA.

Mas não havia com quem deixar Pedro.

Pedro tem 23 anos.

Essa semana, chegou uma carta do governo dizendo que ele pode tirar carteira de motorista de graça.

Num mundo típico,
ele poderia ser meu motorista.
Poderia me levar.

Mas o Pedro não é alfabetizado.

Não pode dirigir.
Não pode ficar sozinho.

E então o que parece solução
vira só mais uma distância.

E o óbvio deixa de ser escolha.

Você fica.

Respira como dá.
Espera como pode.

E entende, de um jeito que ninguém ensina:

nem toda urgência cabe no mundo real.

Dizem que tudo se resolve.

Mas essa frase não atravessa certas madrugadas.

Porque quem cuida vive num cálculo constante
entre o próprio limite
e a impossibilidade de parar.

E é aí que o cansaço se instala de vez:

quando até o risco
precisa esperar.

E mesmo quando eu tento entender o que está acontecendo,
organizar um pensamento,
dar nome ao que sinto —

a vida não pausa.

Ainda está escuro.

E o Pedro me chama.

Quer sair.
Quer passear.

E eu vou.

Sem terminar o pensamento.
Sem concluir.
Sem saber explicar.

Porque, para quem cuida,
até sentir
fica para depois.

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