Março e abril trazem datas importantes.
Falamos de síndrome de Down, epilepsia, autismo, inclusão, saúde, conservação auditiva, hemofilia.
Mas a vida não acontece no calendário.
Ela acontece todos os dias — dentro das casas, nas rotinas que não aparecem, nos caminhos que precisam ser percorridos mesmo quando não há estrutura para isso.
Acontece no silêncio entre uma consulta e outra.
Na tentativa constante de dar conta de tudo.
Quando falamos dessas condições, quase sempre olhamos para a pessoa.
Para o diagnóstico. Para o que é visível.
Mas existe alguém ali — o tempo todo — sustentando o que não aparece.
Quem cuida.
Quem leva, quem espera, quem organiza, quem antecipa.
Quem aprende na prática o que não está nos manuais.
Quem se adapta, muitas vezes sozinho, a uma realidade que exige mais do que deveria.
E quem cuida, na maioria das vezes, vive um desgaste que não entra nas campanhas.
Um cansaço que não aparece nas fotos.
Uma vida que vai sendo reorganizada sem pausa, sem rede, sem apoio suficiente.
Com o tempo, não é só quem precisa de cuidado que sente o impacto.
A família inteira vai sendo atravessada por esse processo.
Outros também adoecem — não por falta de amor,
mas pelo excesso de exigência.
Por isso, quando olhamos para essas datas, a pergunta não pode ser apenas o que será feito em cada uma delas.
A pergunta precisa ser outra:
o que permanece depois?
Calce os meus sapatos.
Mas não por empatia.
Empatia é fácil.
Calce-os
quando ninguém estiver a ver.
Calce os meus sapatos
e atravesse corredores—
onde o som de uma máquina
não avisa.
Só leva.
Calce os meus sapatos
e sorria
quando perguntam:
“o que ele tem?”
Como se ele
fosse um erro
que precisa de explicação.
Calce os meus sapatos
e vá ao parque—
onde o riso dos outros
não chama o seu filho.
Ele não corre.
Não grita.
Não entra.
Ele espera.
Até perceber
que hoje
também não é o dia.
Alguém aqui quer…
calçar os meus sapatos?
Eu também não escolheria.
Calce-os
e volte para casa
com um silêncio—
que não cabe nas paredes.
Um silêncio
que aprende
a viver com você.
E quando disserem:
“vai ficar tudo bem”—
não responda.
Agora tira.
Tira os meus sapatos.
E diz-me—
se ainda é fácil falar.
* * *
As datas passam.
Os posts descem no feed.
As campanhas terminam.
Mas a vida de quem cuida não pausa.
Ela continua — no dia seguinte, no outro, e em todos os outros que não têm nome no calendário.
Conscientização que dura um dia não sustenta a vida real.
É preciso mais do que lembrar.
É preciso sustentar.
Cuidar não pode ser um evento.
Tem de ser presença.
Tem de ser estrutura.
Tem de ser responsabilidade partilhada.
Porque quem precisa de cuidado não vive por campanhas.
E quem cuida
não aguenta viver invisível.


O cuidar é um ato visto como abnegação, mas todo abnegado precisa também ser visto, acolhido, cuidado…