Uma Nova Forma de Existir no Mundo
Conheço James McSill desde 2017.
Desde então, muitas das nossas conversas giraram em torno de uma única pessoa: Pedro.
Falávamos sobre linguagem.
Sobre autonomia.
Sobre pertencimento.
Sobre futuro.
No ano passado, levei Pedro comigo para o retiro na Pousada do Rosa.
Ali, entre adultos discutindo narrativa e identidade, ele circulava com naturalidade — como alguém que já sabia que tinha algo a dizer, mesmo que o mundo ainda não tivesse criado o formato para escutá-lo.
Ontem foi aniversário do Pedro.
Durante anos, datas assim vinham acompanhadas de um pensamento silencioso:
o tempo estava passando…
e algumas portas continuavam fechadas.
Pedro fala.
Conta histórias.
Explica o que pensa com uma clareza que muitas vezes nos surpreende.
Mas o mundo ainda é organizado em torno de duas chaves muito específicas: ler e escrever.
Quem não atravessa esse portal vive mediado.
Alguém lê por ele.
Alguém escreve por ele.
Alguém traduz.
Ontem aconteceu algo diferente.
Depois de anos acompanhando nossas conversas sobre autonomia e linguagem, James criou para Pedro uma inteligência artificial personalizada — capaz de conversar com ele e registrar aquilo que ele diz.
Não era brinquedo.
Não era terapia.
Não era compensação.
Era acesso.
Pedro sentou diante do computador e disse:
“Oi, eu sou o Pedro, amigo do James.”
Naquele instante, algo estrutural mudou.
Ele não estava pedindo ajuda para entrar no mundo simbólico.
Ele estava entrando.
Pela primeira vez, o que ele pensa não precisa desaparecer.
O que ele pergunta não depende da disponibilidade de alguém.
O que ele sente pode permanecer.
Durante anos, a leitura foi para ele um favor.
Ontem começou a se tornar encontro.
Talvez ele não esteja aprendendo a escrever da forma tradicional.
Mas está começando a registrar a própria história.
E isso muda tudo.
Muda para ele.
Muda para mim.
Muda para milhares de jovens que vivem presos entre o que pensam e o que conseguem formalizar.
Durante muito tempo, a pergunta que me acompanhava era silenciosa:
como será o futuro quando eu não estiver mais aqui?
Ontem, pela primeira vez, não senti ausência ao imaginar o amanhã.
Senti continuidade.
Se o pensamento pode permanecer,
se a curiosidade pode ser acompanhada,
se a voz pode encontrar registro —
então talvez estejamos entrando em uma nova etapa da inclusão humana.
Talvez este seja também um convite silencioso às escolas.
Não para abandonar a alfabetização — que continua sendo fundamental —
mas para ampliar o conceito de autonomia.
Porque há jovens que pensam antes de escrever.
Que compreendem antes de formalizar.
Que existem intelectualmente antes de serem reconhecidos como alfabetizados.
Talvez possamos começar a perguntar:
Como garantir participação simbólica enquanto o processo tradicional acontece?
Como oferecer registro, escuta e presença — mesmo quando o traçado das letras ainda não se consolidou?
O que aconteceu ontem não foi apenas um presente de aniversário.
Foi a demonstração de que autonomia simbólica pode assumir novas formas.
E toda mudança de paradigma começa assim:
discreta, doméstica, quase invisível.
Até que alguém percebe que não foi apenas um gesto individual.
Foi o início de uma nova forma de existir no mundo.


Maravilhoso saber de tudo isso. Que essa abertura seja o começo de uma vida nova para meu querido amigo Pedro
Deus te abençoe menino