Cuidar nem sempre é remédio, às vezes é presença, escuta, memória. Ontem, 16 de janeiro de 2026, fui tomar um chá com dona Nemézia Profeta. O que seria uma conversa breve se estendeu até a noite, puxada pelas histórias do pai dela, nascido neste mesmo dia, em 1910 — um homem que foi cuidado até o fim, mas que também cuidava dos outros com aquilo que tinha: a palavra.
Quando a dor lhe tomava o corpo, ele não reclamava — cantava. Da rede onde o movimento já lhe era negado, a voz de Joaquim Marcelo Profeta da Cruz se erguia em louvores, como se cada nota fosse um fio que o ligava ao divino.
“Seu Mestre”, como o povo o chamava, não usava a palavra apenas para governar — usava para curar, consolar e lembrar. Em vez de discursos, contava histórias. Em vez de monumentos, deixou cadernos.
Páginas onde escreveu, com mãos cansadas e alma viva, a história sentida de Vila Bela da Santíssima Trindade — não como nos arquivos, mas como se ouve entre os pássaros que cantam, no calor da terra, no cheiro da memória.
A cada neta, um gesto de amor: sacolas com bocaiuva colhidas nos pastos, onde os pés crescem livres, longe do quintal. Não era apenas fruta — era ritual. Um convite à escuta. Porque depois do sabor vinha a história: dos tempos antigos, das festas do Divino, das danças que ele ajudou a preservar com o corpo e com a palavra.
Quando a dor apertava, ele cantava. Quando a lembrança chamava, ele escrevia. E quando o silêncio se formava ao redor, ele o quebrava com histórias — longas, lentas, carregadas de alma e tempo.
Joaquim Marcelo Profeta da Cruz não foi apenas prefeito, juiz ou líder. Foi o cronista invisível da cidade, aquele que soube que o que não é escrito, se perde. Que o que não é contado, desaparece. Que a história só vive se for oferecida com generosidade — como se oferece uma bocaiuva madura nas mãos de uma neta atenta.
Hoje, no dia do seu nascimento, não celebramos apenas o homem. Celebramos o contador de histórias que, mesmo doente, mesmo calado, nunca deixou de semear memória.
Cuidar é também guardar histórias. É ouvir o que ainda pulsa em quem já se foi. É transformar dor em canto, silêncio em legado, memória em gesto. Seu Mestre foi cuidado — mas também foi cuidador. Com suas palavras, com seus cadernos, com sua escuta. E talvez seja esse o maior aprendizado: que há muitos modos de cuidar, e que a memória é um deles. No fundo, quem cuida da memória também cuida de quem cuida.
E você, tem um “Seu Mestre” na sua vida?
Alguém que cuidou com histórias, cantos, silêncios ou simples presenças? Se quiser partilhar, o espaço aqui é seu. Às vezes, tudo o que quem cuida precisa… é ser ouvido.


Que essa memória se perpetue através de seus filhos e netos… se foi presença em vida, será guardião das memórias e histórias…
Como diz a autora: ”Remédios tratam o corpo, mas o afeto cura a alma e constrói pontes”